Portanto, permitam-me o antiquado uso beat-zen budista do satori, enquanto simultaneamente enfatizo - no caso do slogan situacionista - que uma das raízes de sua dialética pode ser rastreada ao dadaísmo e à noção surrealista do ``maravilhoso'', irrompendo de (ou dentro de) uma vida que apenas parece estar sufocada pelo banal, pelas misérias da abstração e da alienação. Defino meus termos fazendo-os mais vagos, precisamente para evitar as ortodoxias tanto do bidismo quanto do Situacionismo, para escapar de suas armadilhas ideológico-semânticas - estas máquinas de linguagem disfuncionais! Em vez disso, proponho que nós as destruamos em partes, um ato de bricolagem cultural. ``Revolução'' significa apenas outra reviravolta dos timoneiros - enquanto a ortodoxia religiosa de qualquer tipo origina, de forma lógica, um verdadeiro governo de timoneiros. Não vamos idolatrar o satori imaginando-o como monopólio de monges místicos, ou como contingente de qualquer código moral; e no lugar de fetichizar o esquerdismo de 1968, preferimos o termo ``insurreição'', ou ``levante'', usando por Stirner, que escapa à artificialidade de uma mera mudança de autoridade.
Esta constelação de conceitos envolve ``quebrar as regras'' de percepção ordenada para chegar à experiência direta, algo análogo ao processo através do qual o caos espontaneamente se decompõe em ordens fractais não-lineares, ou o modo como a energia criativa ``selvagem'' transforma-se em jogo e poesis. Uma ``ordem espontânea'' a partir do ``caos'', por sua vez, evoca o taoísmo anarquista do Chuang Tzu. Os zen-budistas podem ser acusados de falta de conhecimento sobre as implicações ``revolucionárias'' do satori, enquanto os situacionistas podem ser criticados por ignorar certa ``espiritualidade'' inerente a auto-realização e no convívio que sua causa exige. Ao identificarmos o satori com a revolução do dia-a-dia, estmaos promovendo algo como um casamento forçado tão marcante quanto a famosa composição surrealista com um guarda-chuva e uma máquina de costura, ou seja lá o que fosse. Miscigenação. A mistura de raças defendidas por Nietzsche, que, sem dúvida, foi atraído pela sensualidade das ``castas inferiores''.
Sinto-me impelido a tantar descrever o modo como o satori ``assemelha-se'' à revolução do dia-a-dia - mas não posso fazê-lo. Ou, melhor dizendo, praticamente tudo que eu escrevo gira em torno deste tema; teria de repetir quase tudo para elucidar este simples ponto. Em vez disso, à guisa de apêndice, ofereço mais uma curiosa coincidência ou interpenetração de dois termos, um novamente do Situacionismo e o outro, desta vez, do sufismo.
O ato de dérive ou ``andar a esmo'' foi concebido como um exercício para deliberadamente revolucionar o dia-a-dia - uma espécie de vagar sem rumo através das ruas da cidade, um nomandismo visionário urbano que envolve uma abertura para a ``cultura como natureza'' (se compreendi a idéia corretamente) - que, por sua própria duração, inculcaria nos nômades uma propensão a experimentar o maravilhoso; talvez nem sempre em sua forma benigna, mas, esperamos, sempre geradora de insights - seja através da arquitetura, do erótico, da aventura, bebidas e drogas, perigo, inspiração, o que quer que seja - da intensidade de percepções e experiências não meditadas.
O termo paralelo no sufismo seria ``jornada para os horizontes distantes'', ou simplesmente ``jornada'', um exercício espiritual que combina as energias urbanas e nômades do Islã numa única trajetória, algumas vezes chamada de ``Caravana do Verão''. Os dervixes fazem votos de viajar num determinado ritmo, nunca passando mais do que sete ou quarenta noites numa mesma cidade, aceitando o que quer que aconteça, dirigindo-se para onde quer que os sinais e as coincidências, ou simplesmente os caprichos, os levem, movendo-se de um ponto de poder para outro, conscientes da ``geografia sagrada'', do itinerário como significado, da topologia como simbologia.
Aqui outra constelação: Ibn Khaldun, Pé na Estrada (tanto de Jack Kerouac quanto o de Jack London), a forma do romance picaresco em geral, o barão de Münchhausen, wanderjahr, Marco Polo, meninos numa floresta de verão suburbana, cavaleiros do rei Arthur procurando barulho, veados à caça de meninos, perambular de bar em bar com Melville, Peo, Baudelaire - ou fazer canoagem com Thoreau em Maine... a viagem como a antítese do turismo, espaço em vez de tempo. Projeto artístico: a construção de um ``mapa'' em escala 1:1 do território explorado. Projeto político: a construção de ``zonas autônomas'' mutáveis dentro de uma invisível rede nômade (como encontros sob o arco-íris). Projeto espiritual: a criação ou descoberta de peregrinações nas quais o conceito ``santuário'' tenha sido substituído (ou ``esoterizado'') pelo conceito ``experiência de pico''.
O que estou tentando fazer aqui (como sempre) é prover uma base irracional sólida, uma filosofia estranha (se assim preferirem), para o que chamo de Religiões Livres, incluindo as correntes psicodélica e discordante, neopaganismo não hierárquico, as heresias antinomianas, o caos e o caos mágico, o vodu revolucionário, os cristãos anarquistas e ``sem igreja'', o judaísmo mágico, a Igreja Ortodoxa Islâmica, a Igreja dos Subgênios, as fadas, os taoístas radicais, os místicos da cerveja, o pessoal da maconha etc. etc.
Contrário às expectativas dos radicais do século XIX, a religião não acabou - talvez tivesse sido melhor se ela tivesse acabado de fato - e tem, em vez disso, crescido em poder, aparentemente em proporção ao crescimento global em tecnologia e controle racional. Tanto o fundamentalismo quanto o New Age extraem alguma força da profunda e difundida insatisfação com o Sistema, que trabalha contra toda percepção do maravilhoso na vida cotidiana - chame-o de Babilônia ou de Espetáculo, de Capital ou de Império, de Sociedade de Simulação ou de mecanismo desalmado - o que você quiser. Mas essas duas forças religiosas canalizam seu próprio desejo pelo autêntico para novas abstrações superpoderosas e opressivas (moralidade no caso do fundamentalismo, mercantilismo no caso do New Age) e por essa razão, podem, muito propriamente, ser chamadas de ``reacionárias''.
Assim como radicais culturais desempenharão funções similares nas esferas do trabalho, da família e de outras organizações sociais, existe a necessidade de os radicais penetrarem na instituição da religião, indo além da mera repetição afetada dos lugares-comuns sobre o materialismo ateísta do século XIX. Isso vai acontecer de um jeito ou de outro - é melhor fazer a abordagem com consciência, graça e estilo.
Tendo uma vez vivido perto da sede do Conselho Mundial das Igrejas, eu gosto da possibilidade de uma versão parodiada de uma Igreja Livre - sendo a paródia uma de nossas principais estratégias (ou chame isso de détournement ou desconstrução ou destruição criativa) - uma espécie de network solta (eu não gosto dessa palavra; vamos chamá-la, então, de webwork) de cultos estranhos e indivíduos conversando entre si e oferecendo, préstimos uns aos outros, que poderiam originar um rumo, ou tendência, ou ``corrente'' (em termos mágicos) forte o suficiente para causar algum dano psíquico aos fundamentalistas e ao pessoal New Age, até mesmo aos aiatolás e ao papado, sociáveis o bastante para que discordemos uns dos outros e ainda assim fazermos grandes festas - ou conclaves, conselhos ecumênicos, Congressos Mundiais - o que esperaremos em júbilo.
As Religiões Livres podem oferecer algumas das únicas alternativas espirituais possíveis para televangelistas nazistas e patéticos canalizadores da energia dos cristais (para não mencionar as religiões estabelecidas), e assim se tornarão cada vez mais importantes, cada vez mais vitais num futuro em que a demanda pela erupção do maravilhoso dentro do cotidiano se tornará a mais sonora, tocante e tumultuosa de todas as demandas políticas - um futuro que começará (espere um instante, deixe-me consultar meu relógio)... 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1... AGORA.
Mais artigos de Hakim Bey