Não importa se meus REMs revelem vertiginosas visões quase proféticas ou meras satisfações de desejos vienenses, apenas reis e povos selvagens povoam meus sonhos. Mônadas e nômades.
Um dia nublado (quando nada brilha com luz própria) induz e insinua e sugere que nos comprometamos com uma realidade triste e sem lustro. Mas em sonho nada nos governa a não ser o amor ou a feitiçaria, que são habilidades de seguidores do caos e sultãos.
No meio de um povo que não pode criar nem brincar, que sabe apenas trabalhar, os artistas também não têm nenhuma alternativa a não ser a anarquia ou a monarquia. Como o sonhador, eles necessitam possuir, e, de fato, possuem, suas próprias percepções, e para isso precisam sacrificar o que é meramente social a favor de uma ``musa tirana''.
A arte morre quando é tratada ``sensatamente''. Ela precisa deleitar-se na selvageria dos homens das cavernas ou então ter a boca cheia de ouro pela mão de algum príncipe. Os burocratas e o departamento comercial envenenam-na, os professores mastigam-na e os filósofos cospem-na. A arte é um tipo de barbaridade bizantina feita apenas para nobres e bárbaros.
Se você tivesse conhecido a doçura da vida como poeta no reino venal, corrupto, decadente, disfuncional e ridículo de algum paxá ou emir, algum xá, de algum rei Farouk, de alguma rainha da Pérsia, você saberia que é exatamente isso o que todo anarquista deve querer. Como aqueles voluptuosos insensatos já mortos amavam poemas e pinturas, como eles absorveram todas as rosas e brisas, todas as tulipas e alaúdes!
Sim, odeie sua crueldade e seus caprichos - mas pelo menos eles eram humanos. Os burocratas, por outro lado, que besuntam as paredes da mente com sujeira inodora - tão gentis, tão gemutlich - que poluem a atmosfera interior com entorpecimento - não são dignos nem de merecer o ódio. Eles mal existem para além das idéias sem vida a que servem.
Ademais: o sonhador, o artista, o anarquista - não compartilham um quê de capricho cruel com o mais abominável dos mongóis? Pode a vida genuína ocorrer sem alguma loucura, algum excesso, alguns acessos de ``contendas'' heraclitinianas? Nós não governamos - mas não podemos ser e não seremos governados.
Na Rússia, os anarquistas narodnik2.22 às vezes forjavam um ukase, ou manifesto em nome do czar, no qual o autocrata reclamava que lordes gananciosos e oficiais sem coração o haviam trancado em seu palácio e o separado do seu amado povo. Ele proclamava o fim de servilismo e conclamava os camponeses e trabalhadores a se rebelarem contra o governo em Seu Nome.
Várias vezes esse estratagema logrou conflagrar revoltas. Por quê? Porque um soberano único e absoluto funciona metaforicamente como um espelho para o singular e profundo absolutismo do ser. Cada camponês ou camponesa olhou profundamente para esta lenda esfumaçada e encontrou nela sua própria liberdade - uma ilusão, que rouba sua magia da lógica dos sonhos.
Um mito semelhante deve ter inspirado os ranters, os antinomianos e os homens da Quinta monarquia, no século XVII, a congregarem-se sob a bandeira jacobina com suas intrigas eruditas e conspirações sangrentas. Os místicos radicais foram traídos primeiro por Cromwell e depois pela Restauração - portanto, por que não se aliarem a cavaleiros irreverentes e condes afetados, aos homens da rosa-cruz e maçons do rito escocês, para colocar um messias oculto no trono de Albion?
Entre aqueles que não conseguem conceber uma sociedade humana sem um monarca, os desejos radicais talvez possam ser expressos em termos monárquicos. Entre aqueles que não podem conceber a existência humana sem uma religião, desejos radicais talvez falem o idioma da heresia.
O taoísmo rejeitou toda a burocracia confuciana, mas manteve a imagem do Imperador-Sábio, que se senta silencioso em seu trono mirando uma direção propícia e não fazendo absolutamente nada.
No Islã, os ismaelitas tomaram a idéia do Imã da Família do Profeta e a metamorfosearam em Imã-de-seu-próprio-ser, o ser perfeito estabelecido além de toda Lei e regra, reconciliando com o Uno. E essa doutrina levou-os a se revoltarem contra o Islã, a sofrerem terror e homicídio em nome de uma realização do ser puramente esotérica e da total libertação.
O anarquismo clássico do século XIX definiu-se em meio à batalha contra a coroa e a igreja, e, portanto, num nível consciente, considerava-se igualitário e ateísta. No entanto, essa retórica obscurece o que de fato ocorre: o ``rei'' torna-se o ``anarquista!'', e o ``sacerdote'', um ``herege''. Nesse estranho dueto de mutabilidade, não há lugar para o político, o democrata, o socialista, o ideólogo racional: eles não podem escutar a música e não têm ritmo nenhum. O terrorista e o monarca são arquétipos; os outros são meros funcionários.
Houve um tempo em que o anarquista e o rei estrangulavam a garganta um do outro e valsavam um totentanz - uma batalha esplêndida. Agora, no entanto, os dois estão relegados à lata de lixo da história - ``já-eras'', curiosidades de um passado ocioso e mais sofisticado. Eles giram tão rápido que parece que se fundem... poderiam eles de alguma modo terem se tornado uma coisa só, somo gêmeos siameses, um Juno, uma unidade exótica? ``O sonho da Razão...'' ah! os monstros mais desejados e desejosos!
O Anarquismo Ontológico declara de forma direta, abrupta e quase sem pensar: sim, os dois agora se tornaram um. O anarquista/rei renasceu como uma única entidade; cada um de nós é o mandante de sua própria carne, de suas próprias criações - e de tudo o mais que pudermos agarrar e segurar.
Nossas ações são justificadas por decreto e nossos relacionamentos se moldam por acordos com outros autocratas. Fazemos as leis para os nossos próprios domínios - e as correntes da lei foram quebradas. No momento presente, talvez, sobrevivemos como meros Pretendentes - mas mesmo assim alcançamos alguns instantes, alguns metros quadrados de realidade sobre o qual impomos nossa vontade, nossa royaume. L’etat, c’est moi.
Se nos limitarmos por qualquer ética ou moral, é necessário que seja uma que nós mesmos tenhamos imaginados, fabulosamente mais exaltada e libertária que o ``ácido moral'' dos puritanos e humanistas. ``Sois como os deuses'' - ``Sois Isto''.
As palavras monarquismo e misticismo estão sendo empregadas aqui em parte simplesmente pour épater2.23 aqueles anarquistas igualitários e ateístas que reagem com pio horror a qualquer menção de pompa ou comportamentos supersticiosos. Nenhuma revolução com champanhe para eles!
Por outro lado, nosso ramo de antiautoritarismo prospera de em paradoxos barrocos; prefere estados de consciência, emoção e estética a todos os dogmas e ideologias petrificadas; abraça as multidões e deleita-se em contradições. O Anarquismo Ontológico é um bicho de sete cabeças para GRADES mentes.
A tradução do título (e palavra-chave) do opus magnum de Max Stirner por O Ego e Seu Próprio acarretou num sutil erro de interpretação do que é o ``individualismo''. A palavra anglo-latina ego está carregada e saturada com uma carga freudiana e protestante. Uma leitura cuidadosa de Stirner sugere que O Único e Sua Propriedade talvez refletisse melhor as suas intenções, uma vez que ele nunca define o ego em oposição à libido ou ao Id, ou em oposição à ``alma'' ou ``espírito''. O Ùnico (der Einzege) talvez seja mais bem compreendido simplesmente como o ser individual.
Stirner não se compromete com nenhuma metafísica, no entanto, outorga um certo valor absoluto ao Único. De que forma estão este Einzige difere do Ser do advaita vedanta? Tat tvam asi: Sois (o ser individual) Isto (o Ser Absoluto).
Muitos acreditam que misticismo ``dissolve o ego''. Besteira. Apenas a morte faz isso (ou pelo menos de acordo com nossos pressupostos saduceus). E o misticismo também não destrói o ser ``carnal'' ou ``animal'' - o que também acarretaria suicídio. O que o misticismo realmente tenta superar é falsa consciência, a ilusão, a realidade consensual e todos os fracassos do ser que acompanham essas enfermidades. O verdadeiro misticismo cria um ``ser em paz'', um ser com poder. A meta mais alta da metafísica (alcançada, por exemplo, Ibn Arabi, Boehme, Ramana Maharshi) é, de certo modo, a autodestruição, a identificação UNA do metafísico e do fisíco, do transcendente e do imanente. Certos monistas radicais levaram essa doutrima para além do mero panteísmo ou misticismo religiosos. A percepção da imanente unidade do ser inspira certas heresias antinomianas (os ranters, os Assassinos) a quem nós consideramos nossos ancestrais.
O próprio Stirner parece surdo às possíveis ressonâncias espirituais do individualismo - e nisso ele pertence ao século XIX: nascido muito depois da decadência do cristianismo, mas muito antes da descoberta do Oriente e da secreta tradição iluminista da alquimia ocidental, da heresia revolucionária e do ativismo, oculto. Stirner corretamente desprezou o que ele compreendeu por ``misticismo'', uma mera sentimentalidade piedosa baseada em auto-abnegação e ódio do mundo. Nietzsche cerrou as portas para ``Deus'' alguns anos mais tarde. Desde então, quem ousaria sugerir que o individualismo e o misticismo poderiam se reconciliados e sintetizados?
O elemento que falta em Stirner (Nietzsche chegou mais perto) é o uso de um conceito de consciência não ordinária. A compreensão do ser único (ou ubermensch) deve reverberar e expandir-se como ondas ou espirais ou música para abranger a experiência direta ou a percepção intuitiva da singularidade da própria realidade. Essa compreensão engolfa e dissolve toda dualidade, dicotomia e dialética. Ela carrega em si, como uma corrente elétrica, um senso de valor intenso e indescritível: ela ``diviniza'' o ser.
Ser/consciência/êxtase (satchitananda) não pode ser descartado meramente como mais uma ``excentricidade'' ou um castelo nas nuvens'' de Stirner. Esse conceito não invoca nenhum princípio transcendente exclusivo para o qual o Einzige deve sacrificar a sua individualidade própria. Ele simplesmente constata que uma intensa consciência da própria existência acarreta ``êxtase'' - ou, numa linguagem menos carregada, ``consciência valorativa''. Afinal de contas, o objetivo do Único é possuir tudo; o monista radical obtém isso através da identificação entre ser e percepção, como o pintor chinês de bico de pena que ``se transforma no bambu'' para que ``ele mesmo pinte''.
Apesar das misteriosas alusões de Stirner à ``união dos Únicos'' e apesar dos eternos ``vivas'' e da exaltação da vida feita por Nietzsche, o individualismo deles parece estar, de alguma forma, moldado por uma certa frieza em relação ao outro. Isso se deu, em parte, porque eles cultivavam uma tonificante e purificadora distância da estufa de sentimentalidade e altruísmo do século XIX; e, em parte, porque eles simplesmente desprezavam o que alguém (Mencken?) chamou de ``Homo Estupidus''.
No entanto, lendo por trás e por baixo da camada de gelo, descobrimos traços de uma doutrina ardente - que Gaston Bachelard poderia ter chamado de ``uma Poética do Outro''. A relação do Einzige com o Outro não pode ser definida ou limitada por nenhuma instituição ou idéia. Entretanto, de forma clara, ainda que paradoxal, o Único depende do Outro para ser completo, e não pode e não será um ser realizado em isolamento.
O exemplo dos ``meninos-lobos'', ou enfants sauvages, indicam que um infante humano desprovido da companhia humana por muito tempo jamais atingirá um nível de humanidade consciente - nunca adquirirá uma linguagem. A Criança Selvagem talvez proporcione uma metáfora poética para o Único - e ainda assim, ao mesmo tempo, marca o ponto preciso onde o Único e o Outro devem se encontrar, se fundir, se unificar - para não fracassarem em atingir e possuir tudo aquilo de que são capazes.
O Outro espelha o Ser - o Outro é nossa testemunha. O Outro completa o Ser - o Outro nos dá a chave de percepção da unidade-do-ser. Quando falamos de ser e consciência, apontamos para o Ser; quando mencionamos êxtase, referimo-nos ao Outro.
A aquisição da linguagem coloca-se sob o signo de Eros - toda comunicação é essencialmente erótica, todas as relações são eróticas. Avicena e Dante declararam que é o amor que move as estrelas e os planetas - tanto o Rig Veda quanto a Teogonia, de Hesíodo, proclamam o Amor como o primeiro deus a nascer depois do Caos. Afeições, afinidades, percepções estéticas, criações de beleza, convívio - todas as mais preciosas posses do Único surgem da conjunção entre o Ser e o Outro na constelação do Desejo.
Novamente, o projeto iniciado pelo individualismo pode ser desenvolvido e revigorado com um enxerto de misticismo - especialmente o tantra. Como uma técnica esotérica distanciada do hinduismo ortodoxo, o tantra provê um contexto simbólico (``Rede de Jóias'') para a identificação do prazer sexual e consciência não ordinária. Todas as seitas antinomianas contiveram alguns aspectos ``tântricos'', desde as famílias de Amor e Fraternidade Lives e adamitas2.24 da Europa aos sufis pederastas da Pérsia e ao taoístas alquimistas da China. Até mesmo o anarquismo clássico usufruir seus momentos tântricos: os falanstérios de Fourier; o ``Anarquismo Místico'' de G. Ivanov e outros simbolistas russos do fim do século; o erotismo incestuoso de Sanine, de Arzibashaev, a estranha combinação de niilismo e adoração à deusa Kali que inspirou o Partido Terrorista de Bengala (ao qual meu guru tântrico, Sir Kamanaransan Biswas, teve a honra de pertercer)...
Nós, no entanto, propomos um sincretismo muito mais profundo entre anarquia e tantra do que qualquer um desses exemplos. De fato, simplesmente sugerimos ao o Anarquismo Individual e o Monismo Radical sejam, daqui por diante, considerados um único e mesmo movimento.
Este híbrido tem sido chamado de ``materialismo espiritual'', um termo que queima toda a metafísica no fogo da unidade entre espírito e matéria. Também gostamos de ``Anarquia Ontológica'', porque sugere que o ato de ser permanece num estado de ``Caos divino'', de total potencialidade, de criação contínua.
Neste fluxo incessante, apenas o desejo oferece qualquer princípio de ordem, e, portanto, a única sociedade possível (como bem compreendeu Fourier) é aquela formada por amantes.
O anarquismo está morto, vida longa para a anarquia! Já não precisamos da bagagem do masoquismo revolucionário e do auto-sacrifício idealista - nem da frigidez do individualismo com o seu desdém pelo convívio, pelo viver junto - ou das superstições vulgares do ateísmo, cientificismo e progressismo do século XIX. Todo esse peso morto! Ao lixo com as maletas maltratadas dos proletários, com as pesadas malas de viagem burguesas, com os entediantes sobretudos filosóficos.
Desses sistemas, queremos apenas sua vitalidade, sua força-vital, sua ousadia, sua intransigência, sua raiva, sua imprudência - seu poder, sua shakti. Antes de jogar fora a tralha e mochilas velhas, vamos vascular o depósito à procura de dinheiro, revólveres, jóias, drogas e outros itens úteis - ficar com o que gostarmos e lançar mão do resto. Por que não? Somos lá sacerdotes de algum culto, para rezar por sobre restos mortais e resmungar nossos martirológio?
O monarquismo também possui algo que queremos - uma certa graça, uma certa leveza de ser, um orgulho, uma superabundância. Ficaremos com isso, e jogaremos o peso do autoritarismo e da tortura na lata do lixo da história. O misticismo tem algo que queremos - ``auto-superação'', consciência exaltada, reservatórios de potência psíquica. Apropriaremos-nos disso em nome do nosso levante - e deixaremos que os infortúnios da moralidade e da religião apodreçam e se decomponham.
Como os ranters diziam quando cumprimentavam qualquer ``criatura companheira'' - de um rei a um trombadinha -, ``Regozije-se! Tudo é nosso!''
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