Então: para fugir dos malefícios da carne - assassinato, guerra, fome ganância - paradoxalmente apenas existe um caminho: o assassinato do próprio corpo, guerra contra a carne, fome até a morte, ganância por salvação.
Os monistas radicais, no entanto (ismaelitas2.10, ranters, antinomianos2.11), consideram que corpo e espírito são uma coisa só, que o mesmo espírito que impregna uma pedra negra também infunde a carne com sua luz; que vive e tudo é vida.
``As coisas são o que são espontaneamente... tudo é natural... tudo está em movimento como se existisse um Verdadeiro Senhor para movê-las - mas, se procuramos por evidências desse Senhor, não conseguiremos encontrá-las.'' (Kuo Hsiang)
Paradoxalmente, o caminho monista também não pode ser seguido sem algum tipo de ``assassinato, guerra, fome, ganância'': a transformação da morte em vida (comida, entropia negativa) - guerra contra o Império das Mentiras - ``o jejum da alma'', ou a renúncia à Mentira, a tudo que não é vida - e ganância pela própria vida, o poder absoluto do desejo.
Mais ainda: sem o conhecimento da escuridão (``conhecimento carnal'') não pode existir o conhecimento da luz (``gnose''). Os dois conhecimentos não são meramente complementares: são idênticos, como a mesma nota tocada em duas oitavas diferentes. Heráclito afirma que a realidade persiste num estado de ``guerra''. Apenas notas opostas podem construir a harmonia. (``O Caos é a soma de todas as ordens.'')
Dê cada um desses quatro termos uma máscara de linguagem diferente (chamar as Fúrias de ``as Gentis'' não é um mero eufemismo, mas uma maneira de revelar ainda mais significados).
Mascarados, ritualizados, percebidos como arte, os termos assumem sua beleza tenebrosa, sua ``Luz Negra''.
Em vez de assassinato, diga caçada, a pura economia paleolítica de todas sociedades tribais arcaicas e não autoritárias - venery2.12, tanto a caça e o consumo da carne quanto o encanto de Vênus, do desejo. Em vez de guerra, diga insurreição, não a revolução de classes e poderes, mas a do eterno rebelde, o sombrio que revela a luz. Em vez de ganância, diga ânsia, desejo inconquistável, amor louco. E, em vez de fome, que é um tipo de mutilação, fale de completitude, inteireza, superanbundância, generosidade do eu sobe em espirais em direção ao Outro.
Sem esse baile de máscaras, nada seria criado. A mais antiga mitologia faz de Eros o primeiro rebento do Caos. Eros, o selvagem que pode domar, é a porta pela qual o artista volta ao Caos, ao Uno, e depois retorna, reaparece novamente, trazendo uma das formas da beleza. O artista, o caçador, o guerreiro: aquele que é ao mesmo tempo apaixonado e equilibrado, ganancioso e altruísta ao extremo. Devemos ser salvos de todas as salvações que querem salvar-nos de nós mesmos, do animal que é também nossa anima, nossa própria força de vida, e também nosso animus, nosso auto-apoderamento vitalizador, que pode até mesmo se manifestar como raiva e ganância.
A BABILÔNIA ensinou-nos que a nossa carne é imunda - escravizou-nos com esse argumento e a promessa de salvação. Mas, se a carne já estiver ``salva'', já for luz - e se até mesmo a própria consciência for um tipo de carne, um éter simultaneamente palpável e vivo -, então não precisamos de nenhum poder para interceder a nosso favor. A selva, como diz Omar, é o paraíso agora mesmo.
A verdadeira posse do assassinato pertence ao Império, pois apenas a liberdade é vida completa. A guerra também é babilônica - nenhuma pessoa livre morrerá pelo engrandecimento de uma outra. A fome passa a existir apenas com a civilização dos salvadores, os reis-padres - não foi José quem ensinou ao faraó a especular sobre as colheitas futuras? A ganância - pela terra, pela riqueza simbólica, pelo poder de deformar os corpos e as almas dos outros para sua própria salvação - a ganância tampouco surge da ``natureza natural'', mas do represamento e da canalização de todas as energia para a glória do Império.
Contra tudo isso, o artista tem o baile de máscaras, a radicalização total da linguagem, a invenção de um ``Terrorismo Poético'' que vai atacar não seres humanos, mas idéias malignas, pesos mortos na tampa do caixão dos nossos desejos. A arquitetura da asfixia e da paralisia será destruída apenas pela nossa celebração total de tudo - incluindo a escuridão.
-- Solstício de Verão, 1986
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